sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Sobre ela

Existem palavras que não podem te descrever. Tem “sabor de mar”, tem “cheiro de tesão”, tem a inocência de alguém que quer cedo envelhecer.

Se fosse personagem seria Florípedes, mas como não é... Eu chamo de Flor.

È meio assim: caminhando, descobrindo, buscando não ter nascido mulher; tentando se tornar Mulher. Não quer prender os outros; acha mais importante compreendê-los.

Mas ainda te falta a loucura no talento, que a fará diferente, e elevará o dom que se apelida de “gênio”.

É mulher com bolas, que bebe, dá porrada e chora. Acorda com o pé na porta e dorme como princesa, anseia por um carinho e não importa qual seja, apenas que ele confie.

E, quando sonha, torna-se quem é. O mundo de sonhos é mais real do que parece. Ela não consegue se defender, então pede que alguém a abrace e a proteja enquanto dorme.

Morde, arranha, xinga, chuta e soca. Isso somente se alguém puxar-lhe o cabelo com atitude.

Não consegue parar, o mundo se fecha de forma claustrofóbica, já não existe mais quem entenda! “Que merda”, pensou enquanto esvaziava mais uma garrafa no meio da madrugada. Via-se no meio de um clichê e jurava a si mesma que se não tivesse tanta certeza sobre seu desgosto pelo cigarro, estaria, agora, amassando o segundo pacote comprado no boteco da esquina. No meio de bêbados e solitários, homens nojentos e fedorentos. Impensável agir - mas até que daria para fantasiar algo que nunca aconteceria.

Escreve, escreve, escreve e não sai nada.

Para, pensa, imagina... Fuma outro cigarro fictício e se arruma. Vai sair pra noite: “a vida de vagabunda lhe dá menos trabalho”.

Sua história não tem uma moral, quem busca nela uma lição está enganado. Nada de lágrimas ou lamentações, ela é a mulher desiludida.

ilusão
s. f.
1. Engano dos sentidos ou pensamento.
2. O que se nos afigura ser o que não é.
3. Quimera.
4. Esperança irrealizável.

Seu trabalho é escrever e fica puta quando é obrigada a gastar palavras com textos idiotas. E pior: quando esses textos são diálogos com imbecis.

Porra!

Acordou com os olhos borrados de lápis. Ela sabe que a única coisa mais sexy do que uma mulher acordar com os olhos borrados de lápis, é uma mulher que deu a noite inteira acordar com os olhos borrados de lápis.


A vida é assim: ou você vive ou é feliz. Tem de escolher.

A solução? Comer pessoas, sentir algo que não seja apenas confusão; às vezes, até a dor é bem-vinda, é só saber a razão. Ou, pelo menos, o nome daquele pau.

O problema é que o mundo ‘tá cheio de punheteiros.

Num dia bom, há sorrisos, amigos, compras, sol e calçadão de Copacabana. Num dia ruim, está sem perfume, sem roupa nova, sem inspiração e a alma continua vazia.

Fica imóvel. Olha sério, sem raiva, apenas com atenção. Prefere a noite, o silêncio, a madrugada... Onde possa ser real, sem precisar fugir de si mesma.

Dúvidas.

Esperança.

“Futuro”, Flor escreve no espelho embaçado do banheiro. “Caminho”, escreve sobre a palavra anterior. Passa a mão no espelho e não consegue ver a si mesma, nua, entre a fumaça quente do chuveiro. O espelho venceu; ela ainda está embaçada.

“Porra, não consigo nem me ver nessa merda!”

Mas sabe que na mão de poucos está o alimento. E sabe – espero, né, porra? – que um dia tudo vai dar certo.

“É, mas o que fode tudo é se, por acaso, não der”...

Mas vai.

Beto was shot at 11:03


quarta-feira, 3 de junho de 2009

Poemas da Rosa Branca - Parte #15

Cópia da cópia da cópia



Não fomos feitos para nos
entendermos,
mas para nunca nos separarmos.

Eu sei disso quando vejo os olhos
tristes,
pedintes...quando o canto da boca
se contrai amassando a bochecha,
as pernas se jogam com um gostoso
desleixo desajeitado
enquanto caminham.

E logo, reconheço em ti a beleza
de um sonho,
daqueles simples, tão grandes
que me fazem ao seu lado
sentir como um estrangeiro de mim
mesmo.

Por isso eu preciso escrever, para
entender o que somos juntos.
Para explicar porque preciso
construir
com você um mundo protegido e
protetor.

E o amor? confesso a ti,
tenho muitas dificuldades com o
amor.

E se esse amor for você?
Falar de amor para você é difícil
- se torna assim
quando percebo que nunca fomos,
pois tudo o que somos
é o que sempre fizemos juntos.

Por isso, nunca tomarei o seu
amor,
darei a ti o meu - e ansiarei
pela doação do seu.

Só te peço que não me abandone por
minhas palavras, pois terei
saudades para sempre se partires
da minha vida.
Faço isso apenas pela consciência
de precisar de você para construir

o meu caminho.
De só poder amar você.

Assim essas palavras só existem em
papel,
pois a fala de meu coração,
melhor se realiza em minhas
mãos...minha boca não tem coragem
de dizê-las, traindo o meu corpo
que vive por ama-las.

Beto was shot at 11:40

Poemas da Rosa Branca - Parte #1

Descoberta



Olha que menininha linda
Tão bonitinha
Magrinha, cabelo compridinho.

Seu silêncio são palavras,
palavras que permanecem dormindo
enquanto não tomam vida.
Que aos poucos, devagarinho,
viram palavrinhas
que ficam em fila,
fila que organiza
tudo em frasezinhas

Seu silêncio é a melodia
de pequenas metáforazinhas,
que se juntam uma a uma
cantando o acorde
de sua solidão sozinha.

-Interlúdio-

A palavra é o balsamo
de sua dor,
que busca apenas ouvir-te.
Que tenta ser o corpo de sua alma.

A palavra que descansa no papel
quer falar por você,
quer ser o seu ódio,
sua raiva...seu amor.

- Fim do Interlúdio -

Ela não é grande,
é pequenininha.
Ela não é viva,
tem inveja por não ser língua.

Pois pode morrer de morte morrida.

Ela não é você,
você é quem a cria.

-Por isso menininha linda-
Não tente ser palavra,
pois você é Poesia.

Beto was shot at 11:17

Matrimônio


Casamento, a instituição mais cara já criada pelo homem.
Tudo começa com um encontro, pode ser marcado ou casual, depois
um segundo encontro ou um terceiro para ver se o sexo é compativel;
passado isso entra a zona de adaptação, o namoro, o momento
em que teoricamente se analisa a outra pessoa para ver se ela está apta para o casamento - viaja-se junto, divide-se todo o tempo livre com a outra pessoa, livre porque
no resto do tempo se trabalha para preparar o futuro com a essa pessoa,
Sonham então em ter a casa própria, enorme, com vários quartos e uma área
grande para os filhos brincarem. E que venham os filhos, geralmente deseja-se um casal,
entáo escolhe-se junto, embaixo da coberta o nome deles, uma briga amigável pelos nomes
que termina em sexo...sexo que depois de um tempo se torna mais um ato
de intimidade do que de amor.
Você pode peidar embaixo da coberta e cobri-la que ela vai achar nojento,
mas o seu nojento é lindo para ela, o amor de vocês dois é inesgotável.
Até que chega o grande dia, reúne-se a familia dela e entáo se pede
sua mão em casamento. Beijos e abraços, congratulações, primos que já
a comeram te felicitam com o olhar de "já comi", mas você não liga...ela aceitou
ser o amor da sua vida para sempre, vocês vão juntos até que a morte os separe, e só ela
tem poder para isso sobre o novo casal de noivos.
Ai vem a preparação para o grande dia, começa entáo a soma de valores: festa + igreja + roupas dos padrinhos + vestido da noiva + lua de mel + entrada no apartamento que será o ninho de amor eterno dos dois = horas extras e finais de semanas perdidos para se manter o nível do relacionamento enquanto os dois namoravam. As expectativas são sempre grandes.
Despedida de solteiro, ela vai com as amigas que compram para ela produtos de sex-shop e se acham as pessoas mais pervertidas do mundo ao dizerem o que fariam com isso enquanto bebem duas latas de cerveja e já se encontram completamente bêbadas. Ele vai com os amigos para algumas festa no qual duas ou três mulheres semi-nuas esfregam peitos enormes em sua cara e derramam bebida por todo o seu corpo, para finalmente levarem-no para o quarto e o limparem com a boca e o que mais for necessário...o homem diz a si mesmo que é assim que ele se despede da liberdade, nesse momento ele assume que está entrando numa prisão.

Então porque ele decidiu casar?

O dia do casamento é sempre lindo, padrinhos e madrinhas se pegando pelos cantos, o pai da noiva bêbado falando que está feliz que sua filha não ficou pra titia que ninguém quis comer, e que está sentada do lado dele totalmente desconfortável. A mãe falando para as amigas o quanto eles gastaram só para fazer o arranjo de cada mesa, e sempre aumentado por três.
Os dois lindos e apaixonados, dançam juntos e constantemente dizem que se amam, ao pé do ouvido, baixinho como se o resto do mundo não existisse, é o ponto alto do amor.
E lá vão eles para a lua de mel, que nada mais é do que motivo para trepar o dia inteiro, com breves intervalos para comer e outras necessidades.
Volta-se para casa e começa a jornada do "até que a morte os separe", todo final de semana um jantar fora, um almoço na casa dos pais e uma reunião com os amigos no domingo.
O futebol de terça rola feliz enquanto ela espera ele chegar ansiosamente em casa suado e másculo a ponto de pegá-la no colo e leva-la para a cama.

É lindo estar casado.

E vem o primeiro filho, o coisa mais linda que os dois já viram e fizeram, o amor se concretizou. Vão entáo para casa e percebem que a noite não dura mais tanto tempo, que o sono vira uma raridade, a preocupação aumenta junto com as despesas mensais - quem poderia prever que fraldas são artigos tão caros? -, mas eles começam a se adaptar, e o amor vence novamente, é o começo da familia, o que eles procuraram desde o tempo em que namoravam.
Mas então que vem o segundo filho, e com isso as contas dobram, a mãe percebe que terá que largar o emprego pois ela não quer ser uma estranha para os seus filhos, quer ser a tutora de sua criação, o pai sem nada poder fazer concorda e começa a trabalhar dobrado, chega em casa tarde da noite, nas sextas chega um pouco alto pois passou no bar com os amigos do trabalho para relaxar.

Relaxar da vida de casado que começa a pesar sobre seus ombros e faze-lo questionar sobre os conceitos de liberdade.

As brigas se tornam constantes, o choro dos filhos irrita, o silênco dentro de casa se torna algo raro, ela o culpa por não entender o quanto ela se esforça em casa para manter o casamento funcionando, e ele rebate dizendo que amor somente não pôe comida na mesa, e se ela tem condições de manter o casamento funcionando é porque ele trabalhar que nem um corno...o suficiente para ela falar que é o que ele acabará sendo se isso continuar assim.

Vem então o grande momento, quando a instituição se estabelece como negócio - o divórcio.

Separação de bens, guarda dos filhos, o amor se transformando em desamor, brigas constantes por telefone, os dois não querem mais se ver. Não entendem como puderam ficar tanto tempo juntos, o amor se transforma em ódio, o ódio vira um trauma nos filhos que tentam melhorar o desempenho na escola enquanto os pais travam a terceira guerra mundial.

O amor descobriu que o casamento é o seu pior inimigo.

Beto was shot at 11:01


quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Não Era Mulher o Suficiente

O que acontecia com Flor é que ela não era mulher o suficiente para aquilo a que havia se proposto. Seus olhos tinham o fogo, suas mãos eram frias e seus desejos batidos na antiga máquina de escrever de Souza Cruz.

A tudo que ela pertencia, em nada ela compartilhava. Caminhava calma entre as flores, serpenteava, maliciosamente, os rios que a cercavam... Mas nunca vencia a fome que a alimentava. Ela não era mulher o suficiente.

Dizia que ia ser nobre, mas quando falava isso, eu via, era pobre; tentava esconder os motivos pelos quais havia vindo nesta vida. Todos aqueles desejos "mais ou menos", todos aqueles torpores eram mais que amenos. Mas quando tentava se esquecer de quem seria, assim num dia daqueles feios e chuvosos como os de Maria, nesses dias eu a via... Toda iluminada, cheia de si, não chorava, não reclamava... Só cantava e dizia que quando acordasse, aquela não mais seria, porque fora dali, ela não era mulher o suficiente.

E eu sabia exatamente do jeito que a história de Flor terminaria: com dança, música, festança, bebida e loucura. E, como nos filmes de Hitchcock, uma morte, daquelas cujos assassinos só descobrimos no final.

Quer que eu te conte?

Foi ela, vestida de branco, suada de fazer Deus-lá-sabe-o-quê... Foi ela, que não agüentou, que disse não, que não fugiu. Foi ela, que depois se matou, porque não aceitava não ser mulher o suficiente.

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Beto was shot at 17:19

Mulher

Eu vejo você, mulher, que ainda não se permitiu sair do cárcere do Convencionismo. Ainda não fechou os olhos para entender que enxergar a vida é usar todos os sentidos, é dizer não aos que dizem sim, mergulhar no maravilhoso país dentro da árvore, navegar nos mares nunca dantes navegados e, por fim, morrer nas fogueiras (mais de uma vez) dos que te julgam diferente, e o diferente incomoda, é errado. Ser marginal, é ser diferente do normal. - E não se esqueça, Rosa Flor, de que o normal é puramente social.

Já bebeste da fonte dos loucos? Se não, faça-o, pois esse é dom de poucos. Mas aviso-lhe: será a gestão da insanidade em sua vida. Amar, sim, passará a ser verbo intransitivo. Os redutos serão obscuros, não haverá fotos nas paredes, pois, diferente dos halls mais distintos, Machados, Pessoas, Saramagos, nenhum desses aceitará (muito menos quererá) ser louvado em quadros. Se observar, eles estarão nos bancos com seus cigarros, suas bebidas e suas tragédias. Fazendo amor com cânceres, tuberculoses e recebendo o dom da arte de seus desamores. Serão imortais, pois desprezam a sua própria mortalidade.

Por isso, pequena grande Flor, escolha o seu fardo, mas, por favor, não mate quem tu és; não tenha medo de deixar nascer aquela que todo dia morre. Dê o seu corpo, dê o seu tempo, deixe que eles apodreçam, para que viva a alma e dessa semente saia a flor que poucos vêem, ou apenas sabem que ali está.

E eu.... eu te desafio, eu te desafio, eu te desafio. A remover dessa terra as raízes que sustentam o caule e fincá-las em uma terra mais árida e quente, porém mais rica. Eu te desafio a que você chore rios e depois deságüe em mares. Que você queira menina e deseje mulher, que você seja a dama, oculta, a puta, que você seja perfeita, pois quem diz que perfeição não existe acredita demais nas pessoas... E todo mundo mente!

Afinal, se todos fôssemos especiais, ninguém seria especial. Uns são mais do que os outros, porque esses se permitem sentir, acreditar, chorar, falar, brigar, errar, amar e desamar. Permitir-se ser livre, a nada temer e a tudo experimentar.

Seja um ponto brilhante no céu, não tenha medo, mas receie. Não fique triste, mas chore. Não morra, mas se mate. Para ser sempre o máximo que você puder, a exaustão, mais forte do que você é. Mulher.

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Beto was shot at 17:14


quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Geração Saúde

Escute minhas palavras, meu amigo...

Você nasceu em um mundo onde não teve a chance de ver os Beatles, os “Whos”... Apenas alguns “Stones”, com quilômetros de rugas fazendo curvas dos olhos aos narizes. Túneis fundos de histórias...

Nesse seu mundo, as drogas são consideradas pela ciência como coisas ruins; a Jovem Guarda é motivo de piada - e você não se dá ao direito de ao menos praticar um vício? - A nossa geração sofre problemas para se relacionar - ou será que nós nos relacionamos demais? - pois existe uma cartilha a ser cumprida antes de fodermos uns aos outros. Só umas metidas e algumas gozadas... Não precisa tanto ritual para se alcançar esse objetivo.

O cigarro, que antes era a simples futilidade estética de nos dar “poder” entre os dedos, agora é um vilão que nos prende como o diabo. Aliás, atualmente, ele é um dos demônios que destrói nossa santa civilização.

(E convenhamos que até o 007 era mais charmoso e comia mais mulheres.)

Os clássicos da literatura eram pornográficos; não tinham pudor... Eram como nós, eram Nelson Rodrigues e Sérgio Porto. Ficamos a querer mais, e é isso que podemos produzir: apenas papel velho que conta histórias que não vivemos, e esses papéis rasgam, amassam... Ou, ainda, são reciclados e daí temos, por obrigação, de reescrever por cima da história.

Temos de dar a desculpa de que somos puros e saudáveis reescrevendo, passando uma borracha por cima da história que deveria nos apoiar para sermos o futuro. A manipulação é assim: eles tiram nossas drogas, nossos remédios, nossos vícios e nosso rock’n roll... Até nossas ressacas do dia seguinte estão tentando tirar de nós. Então, quem nós seremos sem poças de vômito? Sem uma festa na qual você acorda ao lado da última pessoa que você conheceria no mundo inteiro. E pasmem: vocês estão nus!

A humanidade involuiu. Hoje nos preocupamos com o corpo; malhação é auto-masturbação. Nós somos a geração de recusados. Nossa cocaína é misturada: não existe mais nada puro nesse mundo. Tiraram-nos o "quê que eu fiz?" e mais: resolveram mandar-nos repetir que as drogas matam. Façamos as contas de quantas pessoas se drogam e quantas morrem de overdose.

(E você, meu amigo, ainda não se permite deixar-se dominar por um vício? Vamos, eu te pago uma cerveja!)

Ainda queremos foder a filha dos outros e por que não ser fodidos por elas? Mas realmente precisamos fingir que as amamos? Ou aceitar que elas nos amam? O pior é que quando citado, nós acreditamos e somos forçados a gostar de acreditar.

Eu prefiro uma boa carreira na barriga de uma japonesa nua. Mas nós nunca vamos recuperar o que perdemos. Afinal, fazemos parte da geração saúde.

Pobres de nós... E imagine o que será de nossos filhos.

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Beto was shot at 13:18