quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Não Era Mulher o Suficiente

O que acontecia com Flor é que ela não era mulher o suficiente para aquilo a que havia se proposto. Seus olhos tinham o fogo, suas mãos eram frias e seus desejos batidos na antiga máquina de escrever de Souza Cruz.

A tudo que ela pertencia, em nada ela compartilhava. Caminhava calma entre as flores, serpenteava, maliciosamente, os rios que a cercavam... Mas nunca vencia a fome que a alimentava. Ela não era mulher o suficiente.

Dizia que ia ser nobre, mas quando falava isso, eu via, era pobre; tentava esconder os motivos pelos quais havia vindo nesta vida. Todos aqueles desejos "mais ou menos", todos aqueles torpores eram mais que amenos. Mas quando tentava se esquecer de quem seria, assim num dia daqueles feios e chuvosos como os de Maria, nesses dias eu a via... Toda iluminada, cheia de si, não chorava, não reclamava... Só cantava e dizia que quando acordasse, aquela não mais seria, porque fora dali, ela não era mulher o suficiente.

E eu sabia exatamente do jeito que a história de Flor terminaria: com dança, música, festança, bebida e loucura. E, como nos filmes de Hitchcock, uma morte, daquelas cujos assassinos só descobrimos no final.

Quer que eu te conte?

Foi ela, vestida de branco, suada de fazer Deus-lá-sabe-o-quê... Foi ela, que não agüentou, que disse não, que não fugiu. Foi ela, que depois se matou, porque não aceitava não ser mulher o suficiente.

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Beto was shot at 17:19