Sobre ela
Existem palavras que não podem te descrever. Tem “sabor de mar”, tem “cheiro de tesão”, tem a inocência de alguém que quer cedo envelhecer.
Se fosse personagem seria Florípedes, mas como não é... Eu chamo de Flor.
È meio assim: caminhando, descobrindo, buscando não ter nascido mulher; tentando se tornar Mulher. Não quer prender os outros; acha mais importante compreendê-los.
Mas ainda te falta a loucura no talento, que a fará diferente, e elevará o dom que se apelida de “gênio”.
É mulher com bolas, que bebe, dá porrada e chora. Acorda com o pé na porta e dorme como princesa, anseia por um carinho e não importa qual seja, apenas que ele confie.
E, quando sonha, torna-se quem é. O mundo de sonhos é mais real do que parece. Ela não consegue se defender, então pede que alguém a abrace e a proteja enquanto dorme.
Morde, arranha, xinga, chuta e soca. Isso somente se alguém puxar-lhe o cabelo com atitude.
Não consegue parar, o mundo se fecha de forma claustrofóbica, já não existe mais quem entenda! “Que merda”, pensou enquanto esvaziava mais uma garrafa no meio da madrugada. Via-se no meio de um clichê e jurava a si mesma que se não tivesse tanta certeza sobre seu desgosto pelo cigarro, estaria, agora, amassando o segundo pacote comprado no boteco da esquina. No meio de bêbados e solitários, homens nojentos e fedorentos. Impensável agir - mas até que daria para fantasiar algo que nunca aconteceria.
Escreve, escreve, escreve e não sai nada.
Para, pensa, imagina... Fuma outro cigarro fictício e se arruma. Vai sair pra noite: “a vida de vagabunda lhe dá menos trabalho”.
Sua história não tem uma moral, quem busca nela uma lição está enganado. Nada de lágrimas ou lamentações, ela é a mulher desiludida.
ilusão
s. f.
1. Engano dos sentidos ou pensamento.
2. O que se nos afigura ser o que não é.
3. Quimera.
4. Esperança irrealizável.
Seu trabalho é escrever e fica puta quando é obrigada a gastar palavras com textos idiotas. E pior: quando esses textos são diálogos com imbecis.
Porra!
Acordou com os olhos borrados de lápis. Ela sabe que a única coisa mais sexy do que uma mulher acordar com os olhos borrados de lápis, é uma mulher que deu a noite inteira acordar com os olhos borrados de lápis.
A vida é assim: ou você vive ou é feliz. Tem de escolher.
A solução? Comer pessoas, sentir algo que não seja apenas confusão; às vezes, até a dor é bem-vinda, é só saber a razão. Ou, pelo menos, o nome daquele pau.
O problema é que o mundo ‘tá cheio de punheteiros.
Num dia bom, há sorrisos, amigos, compras, sol e calçadão de Copacabana. Num dia ruim, está sem perfume, sem roupa nova, sem inspiração e a alma continua vazia.
Fica imóvel. Olha sério, sem raiva, apenas com atenção. Prefere a noite, o silêncio, a madrugada... Onde possa ser real, sem precisar fugir de si mesma.
Dúvidas.
Esperança.
“Futuro”, Flor escreve no espelho embaçado do banheiro. “Caminho”, escreve sobre a palavra anterior. Passa a mão no espelho e não consegue ver a si mesma, nua, entre a fumaça quente do chuveiro. O espelho venceu; ela ainda está embaçada.
“Porra, não consigo nem me ver nessa merda!”
Mas sabe que na mão de poucos está o alimento. E sabe – espero, né, porra? – que um dia tudo vai dar certo.
“É, mas o que fode tudo é se, por acaso, não der”...
Mas vai.
Beto was shot at 11:03